Pe. Dr. Raimundo Gomes Meireles
É impressionante como a morte dos mestres não causa burburinho. Difere-se muito da morte de um político. Em dez de maio de 2003, o Maranhão perdeu seu maior historiador da contemporaneidade, com publicação superior a quarenta e oitos obras, professor Mário Martins Meireles, no hospital da UDI, vítima de uma dengue hemorrágica. Instaurou-se um silêncio! Poucos comentários através dos meios de comunicação. Um louvor ao Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão por não ter compartilhado por tal silêncio tenebroso.
Recentemente, outra grande perda, o maranhense Josué Montello, um dos maiores escritores brasileiros, autor de mais de 150 obras, membro das academias maranhense e brasileira de letras, autor de inúmeras obras publicadas e algumas traduzidas em vários idiomas. Escritor de um cabedal fantástico. Não se entende. Um homem que produziu tanta literatura maranhense tenha causado no dia de sua morte tanto silêncio! O que se falou e o que se escreveu, foi muito pouco para o tanto que ele deu de si. São os imortais que se igualam aos mortais pelo esquecimento!
E, para completar o “círculo da morte dos mestres”, no domingo de Páscoa São Luís perdeu um outro mestre, o cônego padre Paulo Monteiro Sampaio. A este último, mais silêncio ainda! Talvez por não ser maranhense e político. Pode-se admitir, para seguir a lógica inexplicável, mas até a ele silêncio! Logo a ele, que tanto gritou nos púlpitos das igrejas de São Luís. Certa vez, na mesma lendária igreja de Santo Antônio, padre Antônio Vieira, ao falar ao povo maranhense e este, não querendo ouvi-lo, direcionou seu sermão aos peixes. Padre Paulo disse que quando isso acontecia, falava aos anjos! Eis o momento da resposta de muitos casais a quem ele assistiu seus matrimônios, seus alunos de francês, português, famílias e jovens, além de tantos que o procuravam para aconselhamento espiritual. Quando jovem, era muito dinâmico, ágil, sempre irradiava uma alegria contagiante.
Padre Paulo, como era conhecido em nossa São Luís, nasceu aos 22 de fevereiro de 1919, em Parnaíba, Piauí. Chegou a São Luís em 1930, com 11 anos de idade, permanecendo toda sua vida nesta cidade, na casa que ele mais amava, o Seminário Santo Antônio. Ordenado presbítero da Igreja Católica em 1º de janeiro de 1942, foi professor, mestre das línguas portuguesa e francesa, membro da equipe de formação dos seminaristas maiores. Em 1960, recebeu o título de cônego, por intermédio do arcebispo dom José da Motta e Albuquerque. Exerceu diversas atividades eclesiais: pároco da Paróquia São João Batista, por 10 anos, capelão do Hospital Geral durante cinco anos, no Colégio Santa Tereza exerceu a capelania por mais cinco anos, chanceler do arcebispado por oito anos, assistiu durante 38 anos (1967 a 2005), a capelania do Colégio Maristas. Somente deixou de exercer suas atividades sacerdotais em 19 de dezembro de 2005, por motivo de saúde.
Recebeu o título de Cidadão Ludovicense, Medalha do Mérito Timbira, Medalha do Rotary, Amigo da Marinha. “Infelizmente, as datas não temos registro, somente sabemos que declinou do recebimento de Cidadão Maranhense, pois considerava-se mais Cidadão de São Luís”, disse Ruth Maria Álvares, sobrinha do eclesiástico, pessoa que o visitava quase todas as tardes. Na verdade, o que mais gostava era de viver a vida em sua plenitude e ajudar aos mais necessitados, sempre disponível aos que lhe procuravam, era muito conhecido por seus gestos de caridade aos pobres ao lado do Seminário Santo Antônio.
Amante do folclore maranhense, mormente o bumba-meu-boi. Quanto a obras escritas, não as deixou registradas, apenas alguns rascunhos que se perderam ao longo do tempo. Só escrevia a quem lhe pedia, o que gostava mesmo era da oratória. Padre Paulo silenciou para este mundo, mas nós não podemos deixar de dizer aos maranhenses o que ele foi em vida, um mestre da palavra entre o clero e o povo. Grandes mestres partem no silêncio, para deixar falar os que os admiram tentando perpetuar suas obras. Ler e interpretar a vida destes mestres é dar prosseguimento, fazendo germinar, florescer e frutificar novas gerações de literatos e de sacerdotes do saber.
Artigo publicado em memória do falecimento do Pe. Paulo Sampaio.