Tendo ele saído para se pôr a caminho, veio alguém correndo e, dobrando os joelhos diante dele, suplicou-lhe: "Bom Mestre, que farei para alcançara vida eterna?"
Jesus disse-lhe: "Por que me chamas bom? Só Deus é bom.
Conheces os mandamentos: não mates; não cometas adultério; não furtes; não digas falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe."
Ele respondeu-lhe: "Mestre, tudo isto tenho observado desde a minha mocidade."
Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: "Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me.”
Ele entristeceu-se com estas palavras e foi-se todo abatido, porque possuía muitos bens.
E, olhando Jesus em derredor, disse a seus discípulos: "Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os ricos!"
Os discípulos ficaram assombrados com suas palavras. Mas Jesus replicou: "Filhinhos, quão difícil é entrarem no Reino de Deus os que põem a sua confiança nas riquezas!
É mais fácil passar o camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus."
Eles ainda mais se admiravam, dizendo a si próprios: "Quem pode então salvar-se?"
Olhando Jesus para eles, disse: "Aos homens isto é impossível, mas não a Deus; pois a Deus tudo é possível.”
Pedro começou a dizer-lhe: "Eis que deixamos tudo e te seguimos."
Respondeu-lhe Jesus. "Em verdade vos digo: ninguém há que tenha deixado casa ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras por causa de mim e por causa do Evangelho
que não receba, já neste século, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, com perseguições e no século vindouro a vida eterna.”
Prossigamos na meditação do capítulo 10 do evangelho de Marcos.
Domingo passado o tema foi sobre a vida matrimonial. Como é difícil viver o amor conjugal, mas não impossível para quem vive do projeto original do Criador.
Neste domingo o Evangelho nos acompanha a descobrir a vida do verdadeiro discípulo.
`Alguém´ pede a Jesus indicações precisas e novas para viver a vida e alcançar a vida eterna.
A procura inicial parece entusiasta, juvenil, sem medida: esta pessoa corre ao encontro de Jesus e se ajoelha aos seus pés! Reconhece que Jesus é mestre, um mestre excelente! Suplica de mostrar-lhe o caminho para alcançar a vida eterna! É um anseio profundo, que se manifesta numa súplica gritante! Tem honestidade de pedido e predisposição para seguir bons conselhos!
Jesus declara que só Deus é totalmente bom! E que, como zeloso judeu, para seguir o caminho da bondade divina, esta pessoa precisa cumprir os mandamentos de Moisés. Jesus alista só os mandamentos “morais” e deixe de lado por enquanto os 3 primeiros mandamentos sobre o relacionamento com Deus. Solicita só o relacionamento justo com o próximo.
O interlocutor de Jesus declara, porém, de ter observado sempre os mandamentos desde sua mocidade, como para dizer: “Já cumpri, Jesus, tudo isso, mas me falta algo para me sentir realizado, para me sentir bem e para garantir-me a vida eterna!”
Aumenta a intensidade do diálogo entre a pessoa e Jesus!
O Mestre agora fixa nos olhos, conhece e ama integralmente o suplicante e lhe propõe algo de extraordinário: "Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”!
Diante de um pedido extremo, Jesus faz uma proposta extrema. Reconhece que algo está mesmo faltando...é a liberdade diante das coisas terrenas, a disponibilidade de fazer de Deus o verdadeiro e único Senhor da vida, a única Riqueza pela qual viver e na qual confiar!
Frei Betto, várias vezes nas suas intervenções, lembra que nos Evangelhos quem pede a Jesus de possuir a vida eterna é porque já ganhou aqui na terra privilégios materiais de segurança e conforto! Os ricos pretendem garantir sua vida com os bens materiais e já colocar as mãos na posse da vida eterna!
Sabemos qual foi a reação daquele infeliz: se entristeceu, ficou abatido e...se mandou, porque possuía muitos bens aos quais não estava disposto a renunciar! Disposto a renunciar a Jesus e ao seu olhar e proposta de amor, disposto a renunciar a vida realizada na verdade e na justiça, disposto a renunciar a procura da vida eterna, mas não estava disposto a renunciar a vida de luxo e comodidade, garantida pela riqueza material!
Assim Jesus abre o diálogo para os outros discípulos e os de todos os tempos! O perigo da riqueza de se tornar empecilho enorme e quase impossível a ser vencido se não confiar e não mergulhar verdadeiramente no amor de Deus, pelo qual nada é impossível!
Quem percebe a riqueza do amor de Deus descobre a capacidade de renunciar às coisas terrenas e até de relativizar os afetos mais caros. Saboreará o ganho obtido no seguimento de Jesus, recebendo multiplicadas infinitivamente alegrias terrenas e celestes por parte de Deus Pai.
E nós: fizemos a experiência dessa liberdade interior e concreta das coisas terrenas ou também nós nos deixamos tentar do mundo capitalista e consumista, confiando mais no acúmulo das riquezas materiais do que em Deus? Percebemos que só Deus é nossa única Riqueza que nos ajuda também a ter uma correta relação com as coisas numa prática de justiça e partilha fraterna?
Que nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, nos ensine a ser todos humildes discípulos e audaciosos missionários de seu Filho Jesus.