A Consolação do Consolador

A CONSOLAÇAO DO CONSOLADOR

 

No final de semana no dia 20 de Novembro de 2010, Dia Nacional da Consciência Negra, festa do líder negro Zumbi dos Palmares, vivenciamos a dor pela perda do nosso jovem Padre Bernardo Muniz Rabelo Amaral, 28 anos, filho da cidade maranhense de Morros, dois meses e meio de ordenação presbiteral. Vitima de latrocínio (roubo seguido de morte), Pe. Bernardo sofreu a crueldade a que estão submetidos milhões de jovens brasileiros que vivem a insegurança social e a banalidade pela vida humana. Os socialmente violentados de ontem, muitas vezes se tornam os violentadores sociais de hoje.


Durante o velório na Igreja matriz Nossa senhora Aparecida, na cidade de Morros, uma multidão de gente: familiares, amigos, curiosos, pessoas das diversas comunidades e o clero. Fiquei a meditar sobre a consolação dos consoladores, já que esta é uma, dentre as tantas tarefas do padre: ser presença consoladora de Jesus compassivo e misericordioso. Nós padres choramos também, como Jesus o fez ao sentir a perda do amigo Lázaro. Não um choro de desespero, ódio ou rancor. Mas, sim, um choro do coração ferido de quem ama e lamenta profundamente a perda do irmão-amigo que se foi.


A pergunta permanece: quem consola o padre, que muitas vezes se vê ferido e fragilizado, com dores na alma? Certamente esta consolação vem por primeiro da força do Cristo crucificado-ressuscitado, tantas vezes proclamado nas homilias; vem do Cristo que se faz alimento de vida eterna em nossas eucaristias. Esta consolação se faz visível no abraço singelo e fraterno do outro irmão presbítero e de tantas irmãs e irmãos, solidários companheiros da mesma caminhada de fé eclesial. Nestas horas, como é bom sentir esta ampla e efetiva comunhão que vem do nosso povo que ama a vida, professa a esperança e muito quer bem aos irmãos presbíteros.


Certamente que muito nos chamou a atenção a comoção e as lágrimas do nosso irmão maior Dom José Belisário. É o pastor que sente a perda, não somente de uma ovelha que foi brutalmente cevada, mas de um filho que se foi. O coração sacerdotal participa do mesmo destino humano, com todas as suas angústias, contradições, alegrias, sonhos; somos todos moradores peregrinos desta e nesta terra. O sacerdote é chamado a oferecer “com Cristo, por Cristo e em Cristo”, a oblação da própria dor, do coração dilacerado pela perda do irmão que se foi. Bebemos do cálice amargo da aflição, sabendo que o sentido ultimo de todas as coisas é a realidade esperançosa do reinado do amor em Jesus, o ressuscitado de Nazaré. “Eis que faço novas todas as coisas”. (Ap 21,5)


Consolados por Aquele que nos consola, o coração sacerdotal deve fortalecer-se profundamente pelas convicções de seu Mestre e Senhor: amor incondicional, mesmo pelos inimigos; perdão ilimitado mesmo para com aqueles que nos odeiam; compaixão solidária aos pobres; sentido evangélico da justiça de Deus; profecia nas lutas em defesa da vida; engajamento nas estruturas sociais que propõem formas alternativas e criativas no cuidado por toda a criação, a humanidade e a natureza. Não compartilhemos NUNCA da mentalidade perversa deste mundo, que continua a querer o “olho por olho e dente por dente”; onde o ter vale mais que o ser. Mantenhamo-nos orantes e vigilantes na oração pela paz que é dom de Deus e fruto da justiça.


Maria, Mãe da esperança, Senhora das Dores, Consoladora dos Aflitos, nos ajude com sua presença fiel, orante e silenciosa . Junto com os familiares do padre Bernardo, cantemos o Magnificat dos novos tempos: “Virá o dia em que todos, ao levantar a vista, veremos nesta terra, reinar a liberdade”.

 


São Luis, MA, 22 de Novembro de 2010.
Pe. Antonio José Ramos Costa
Arquidiocese de São Luis do MA.- reitor