Creio na comunhão dos santos
O mês de novembro assinala duas comemorações – Finados (dia 2) e Todos os Santos (dia 1º) – que na liturgia católica são mais do que comemorações, pois se fazem forte convite à reflexão sobre a comunhão dos santos, verdade da nossa fé contida no Credo Apostólico.
A santidade é atributo de Deus, comunidade de amor – Pai, Filho e Espírito Santo – que sempre a quis partilhar com seu povo, escolhido para ser sua testemunha onde quer que estivesse inserido, seja o povo como um todo, seja cada membro desse povo. A ordem de Deus é muito clara, conforme lemos no livro do Levítico: “Sede santos, porque eu, o senhor vosso Deus, sou santo” (LV 19,2).
A Igreja, sinal/sacramento de Deus no meio do mundo, ao nos apresentar a comemoração de Todos os Santos está nos indicando os valores que devem nortear a caminhada dos seus fiéis rumo à concretização do desejo de Deus em relação a seu povo, e ao mesmo tempo cumprindo a sua missão: anunciar no tempo e no espaço a salvação. É preciso, pois, escutar a voz da Igreja e seguir as suas orientações para que a vontade de Deus se torne uma realidade na vida de cada cristão.
A comemoração de Todos os Santos é um modo concreto da Igreja nos dizer que a santidade é vocação de todos os batizados e que ela se concretiza nos membros da comunidade de fé que se mantêm em comunhão, porque ninguém se torna santo isoladamente, mas do seio da comunidade, vivendo com ela os altos e baixos próprios da condição humana. Essa condição de fragilidade do ser humano, a Igreja nos mostra, de modo especial, na sua liturgia quaresmal: “lembra-te, ó homem, que és pó e ao pó retornarás”. Todavia, é reconfortante saber pela voz e ensinamentos dessa mesma Igreja que esse pó, essa terra, antes infértil pelo pecado, tornou-se fértil pela força da encarnação, paixão, morte e ressurreição de Jesus que nela plantou a semente da sua graça, semente que ai germina, cresce, floresce e frutifica em santidade. Os santos são, portanto, dons de Deus à sua Igreja para o bem de toda a comunidade humana.
Se tempos houve, na história do cristianismo, em que o cristão para atender seus anseios de perfeição devia afastar-se do convívio dos demais, hoje é uma exigência dessa mesma busca a inserção na comunidade partilhando dos seus anseios e angústias, das suas esperanças e certezas. Assim, cada membro da comunidade que se eleva rumo à santidade, leva consigo toda a comunidade, pelo vínculo da comunhão dos santos, pois os esforços de cada um para corresponder positivamente aos impulsos do espírito em direção à santidade, conquanto pareçam individuais, são comunitários, porque não existe cristão isolado, mas inserido na comunidade de fé e nas realidade temporais. O ser cristão supõe pertença a Cristo, através da sua Igreja, mas encarnado no mundo. Mesmo quando isolado fisicamente, por força das circunstâncias, o cristão está inserido na sua comunidade de fé pela força da comunhão dos santos. E Jesus no sermão do monte, retoma as palavras do Levítico e relembra-as a seus seguidores, daquele tempo e de todos os tempos: “Sede santos como vosso pai celeste é santo” (Mt 5,48).
A comemoração dos Finados, mais do que apontar para a fragilidade humana, aponta para a certeza de uma realidade bem mais forte, a comunhão dos santos, da qual fazem parte todos aqueles que integram a comunidade de fé cujos fundamentos se firmam na encarnação, paixão, morte e ressurreição de Jesus. É que para estes os “mortos” não morreram, continuam vivos n’aquele que deu sentido e força a seu caminhar na trilha da existência humana. E, portanto, não creram em vão, porque “Jesus Cristo é sempre o mesmo: ontem, hoje e por toda a eternidade” (Hb 13,8).
Antônio Alves Monteiro